O SaaStr Annual, em sua segunda edição, é um evento feito para empresas SaaS (Software as a Service), que tem público alvo especialmente CEO’s e fundos de Venture Capital. Foram 3000 pessoas, com gente de 47 países diferentes, o que resultou num “caldo” interessante. Havia desde pessoas como eu, até pessoas muito simples. 🙂 Reformulando: havia desde pessoas como eu, até figurões do mundo tech. Vi circulando pelo evento como participantes, por exemplo, o CEO do Trello, o founder da Snapchat, além de “keynotes hotshots” como o CEO da Marketo (Phil Fernandez), Dharmesh Shah (CTO Hubspot), Dan Siroker (CEO Optimizely), Aaron Ross, todos acessíveis a qualquer momento para um papo.

O universo SaaS em minha opinião está inventando como irá se fazer negócios e , principalmente, como irá se vender em qualquer indústria no futuro. A aptidão deste segmento de tech em inserir tecnologia num processo antes analógico de porta-a-porta e maleta embaixo do braço permite que avance a uma velocidade muito superior às dos demais segmentos. Empresas SaaS estão reinventando como se vende e esse é o lugar para se estar para absorver tudo isso. Tentando colocar em miúdos todas impressões:

1 – O Local

O evento aconteceu no Nob Hill Masonic Center em San Francisco, um centro maçônico mas de uso público para eventos e shows, sobre uma daquelas altas colinas de São Francisco. Se você nunca foi a San Francisco, talvez se lembre de cenas de perseguição em que os carros policiais voavam nas rampas dos morros – pois é em uma dessas. A pernada do metrô até lá garantia que chegássemos lá em cima aquecidos! A infraestrutura para eventos nos Estados Unidos é incrível. Independente do número de participantes, é possível colocar todos sentados confortavelmente sem ter que fazer “puxadinhos” ou improvisos. Foi a mesma impressão que trouxe do Inbound, evento da Hubspot em Set/2015 em Boston. Comparo com o trabalho heróico que a RD teve para realizar o RD Summit para aproximadamente o mesmo número de participantes (~3000) com altíssima qualidade. Nos EUA, a oferta de espaços preparados, deixa tudo mais plug’n’play.

 

2 – “Amenidades”

O evento foi basicamente desenhado para todo mundo ficar bêbado durante todos os dias, o dia todo, o que realmente facilita o networking! Estou exagerando quanto à embriaguez, mas realmente havia bebida alcoólica 100% free desde as 9 da manhã (me assustei quando me ofereceram bacon com cerveja às 8h30am). Apesar de não ter estômago para desfrutar da oferta tão cedo, achei a atitude pretty cool, deixava o negócio meio que parecido com Mad Men. Os painelistas davam o tom, sendo servidos de cerveja ou coquetel no palco. No fim o objetivo foi alcançado: as pessoas realmente estavam abertas ao networking e não havia ninguém caindo pelas tabelas.

Comida também era totalmente liberada, com várias sessões de lanches durante o dia, além de almoço. Houve também uma balada totalmente financiada pelo SaaStr, onde o DJ foi o Mix Master Mike do Beastie Boys (fui empolgado achando que era um dos três, mas no fim era “só” o DJ).

saastr-party

3 – Formato
Ao contrário da maioria dos eventos em que tenho participado, em que há uma pessoa munida de slides e um discurso bem treinado, o SaaStr apostou em um modelo de talk show, orquestrado pelo habilidoso Jason Lemkin (idealizador do evento e dono do portal SaaStr), que dava uma velocidade e sagacidade incríveis aos temas e nunca deixava de fazer as perguntas difíceis. Alguns painéis tinham um “entrevistado”, outros contavam com 3 pessoas, além do moderador (que se alternavam entre o Jason e outros).

Havia duas tracks paralelas, uma de estratégia, onde falavam os VC’s e os big names, e outra tática, que entrava mais nos detalhes de operação em temas como vendas e customer success.

Track Principal

Track Principal com Tom Tunguz no palco

Track secundária

Track secundária

Além disso, havia uma feira de negócios com muitas empresas apresentando seus produtos. Gostei muito do que vi na CirrusInsight (permite se operar o Salesforce de dentro de seu Gmail), na Walkme (permite se criar onboardings em qualquer ferramenta SaaS sem ter que incomodar nenhum dev) e na SendSonar , que integra todos os meios de mensagens de texto (Facebook Messenger,SMS, etc) em uma plataforma só (o Head of Growth morou em Brasília e fala português).

4 – Pessoas

Como em qualquer boa viagem e qualquer bom evento, a melhor parte foram as pessoas que estavam presentes! Os CEO’s das principais empresas que estão puxando o movimento SaaS no Brasil estavam lá em peso (SambaTech, RockContent, Resultados Digitais, Geofusion, Conta Azul, AppProva, Meus Pedidos, SaaSmetrics, Softplan, SistemaHiper, Nibo, etc). Era normal você ver circulando como participantes pessoas como o CEO’s do Trello, Founder do Snapchat, CTO da Hubspot, etc. Mark Zuckerberg ainda não aprendeu a gerar receita recorrente e não compareceu. 🙂

Entre os dois extremos dos big names e aqueles que são “de casa”, havia um mundo de empreendedores de 47 países diferentes, todos fazendo coisas muito interessantes e totalmente abertos a um bate-papo. Conversei bastante com empreendedores da Alemanha para desenferrujar meu alemão. Muito interessante o case da shore.com, empresa de Munique que cresceu a 3000 clientes em 1,5 ano somente com estratégia de representantes comerciais, o que eu achava impossível, devido ao alto CAC e dificuldade de recrutamento e treinamento da força de vendas. Provaram que eu estava errado, porém já sentiram a dor de que apesar de terem conseguido escalar até aqui, vão precisar em 2016 de um suporte forte inbound para reduzir custos e aumentar previsibilidade. Além dos países óbvios, alguns indianos, neozelandeses, gregos, búlgaros, etc. Lição1: é possível criar ótimos produtos em qualquer lugar do mundo. Lição 2: todos de “qualquer lugar do mundo” almejam vir aos EUA, se possível a SF.

Figurões à parte, minha maior satisfação foi de poder trocar experiências com os empreendedores brasileiros em um ambiente, em que não estavam na correria e conseguíamos conversar de maneira tranquila Também falar com outros empreendedores “normais” em que tropeçávamos, como o Jeremie. Quando perguntei o que ele fazia, ele disse: “eu crio empresas de software e sou ultramaratonista” e daí o papo se prolongou por horas. Zero ego e total disponibilidade a falar sobre qualquer tema fizeram desta e várias outras conversas algo especial.

Era tanta gente interessante que na metade do segundo dia já me preocupava menos em assistir a todos painéis, pois sabia que o melhor do SaaStr estava nos papos de corredor.

5 – Negócios

Hoje trabalhando com consultoria, meu alcance de fechar negócios no evento era de certa forma limitado (tampouco era o foco de minha ida), já que hoje não consigo ter mais que 2-3 clientes simultâneos. Porém, para quem estava procurando fechar parcerias, procurando investidores, houve um ganho enorme, imediato! Todos ali estavam muito abertos a fazer negócios. Se você tinha uma internacionalização no radar ou estava tateando a possibilidade de trazer um investidor a bordo, este era o lugar certo para se estar.

6 – Timing

O evento ocorreu justamente na mesma semana de dois eventos muito importantes para o mundo SaaS:
a queda abismal do valor das ações das principais empresas na Nasdaq (Box por exemplo perdeu 12% em um dia – mais detalhes neste artigo: http://www.businessinsider.com/saas-stocks-worse-than-market-2016-2)
CEO da Zenefits, que era para ser um dos principais palestrantes do evento, pediu demissão após um escândalo de fraude, como se pode ler aqui nesta reportagem da Fortune.

Isto tornou tudo mais intenso e o tema era constante na maioria dos painéis. O melhor deles sem dúvida foi do Mark Suster (a palestra dele foi basicamente o que ele escreveu neste post, altamente recomendado para quem tem tempo) que foi categórico em dizer que as empresas SaaS estão overpriced e que os “múltiplos” (relação entre valor de equity/valor de receita, explicado resumidamente aqui devem cair significativamente nos próximos meses.

7 – Palestras/Painéis

Aqui não vou me alongar muito pois o Diego, co-founder da Rock Content, documentou tudo e ficou impossível de competir. 🙂  Segue o link para quem quiser ver em detalhe o que aconteceu e tudo o que foi discutido nas palestras.

Além disso, em breve o SaaStr deve disponibilizar o vídeo de todas palestras em seu site. Aqui a primeira delas,  uma entrevista com o Zach Nelson, CEO da NetSuite.
De qualquer forma, os palestrantes foram de altíssimo nível e o modelo de painéis funcionou muito bem. O lado negativo, que é comum a todo evento que fica grande, é que sentia que os palestrantes não estavam realmente abrindo o jogo 100%, como fariam em um grupo menor. Algumas conversas ficaram muito superficiais, institucionais. Imagino que para CEO’s de empresas que já estejam em crescimento, com mais de 100/200 funcionários, vários painéis podem ter soado como blábláblá.

Conforme um evento fica grande, uma vez que há imprensa, investidores e clientes envolvidos, os palestrantes ficam mais receosos de abrir seus erros e fraquezas o que prejudica o real aprendizado. Via de regra, eventos maiores são ótimos para networking, enquanto eventos menores são melhores para real aprendizado.

8 – O dilema

Um ponto interessante que ficou evidente foi o dilema existente na relação empreendedor x venture capital (VC). Qualquer caminho de crescimento de uma start-up que não passe por captar recursos de venture capital dificultam muito a vida do empreendedor. O bootstrapping (crescimento com capital próprio) fica cada vez mais raro. Sem um VC, as conexões com novos clientes e parceiros ficam limitadas e a capacidade de expansão restrita. Isto porém gera um dilema. Para o VC não interessa que o CEO crie uma empresa “simplesmente saudável”, que gere caixa (uma startup SaaS que gera caixa é um sacrilégio). Gerar caixa ou ganhar dinheiro significa que você não está crescendo rápido suficiente. Daí a famosa máxima: “Go big or go home”.

Isto coloca o empreendedor muitas vezes em uma “sinuca de bico” na linha de: “ainda não estou seguro do caminho a seguir, não criei minha máquina de marketing e vendas, mas tenho que colocar mais gente para crescer o mais rápido possível”. Logicamente os VC’s também tem o seu dilema: apostam em uma ideia ou empresa em estágio inicial, colocam dinheiro de investidores, correm riscos enormes e precisam que a sua valorização seja muito maior que a geração de caixa. Conversando com um empreendedor no evento ele me confessou: “ano passado a gente ganhou dinheiro, mas por favor não conta para ninguém.” 🙂

Isto sem falar no risco de não se crescer rápido o suficiente e dar espaço para outra solução aparecer, tomar os riscos e levar para si o mercado. É um jogo de tudo ou nada!

9 – Impressões finais

A ida para o SaaStr representava um custo importante (dólar a R$4 não deixa as coisas muito “engraçadas”) mas entendi que havia uma grande oportunidade de poder entregar mais conhecimento às empresas com que vou trabalhar, abrir a cabeça, assim como trocar experiências com gente que faz e com gente que fez. Custo alto somado a expectativas altas é a receita perfeita para a frustração, certo? Não podia estar mais errado! Todas expectativas foram superadas e sem dúvida voltarei na edição do ano que vem. Foi um evento espetacular e recomendado a todos que estejam ou não no mundo SaaS.

10 – Bônus

A cidade também é espetacular e vale tirar um dia para conhecer. Recomendo fazê-lo de bike, como documentei neste outro post em meu blog pessoal.

São Francisco de Bike